TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO COM HIPERATIVIDADE

 

TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO COM HIPERATIVIDADE

Ao retornar, Ron Minson verificou que podia livrar centenas de pessoas de antidepressivos e estimulantes como Ritalina, usados para tratar transtorno do déficit de atenção (TDA), aplicando, no lugar dessas, a terapia sonora. Ele e sua esposa, Kate O’Brien, logo desenvolveram uma versão do equipamento de Tomatis, semelhante ao LiFT de Paul, sendo portátil e pequeno o suficiente para caber no cinto de uma pessoa. A partir da sugestão de um colega, Randall Redfield, o casal começou a integrar movimento, equilíbrio e exercícios visuais ao programa de escuta, para que o paciente pudesse processar ao mesmo tempo os estímulos de diferentes sistemas sensoriais, estimulando ainda mais o cérebro. Eles deram ao programa o nome de Sistemas Integrados de Escuta (Integrated Listening Systems, ou iLs).


Ron informa que ao longo dos anos ajudou 80% de seus clientes com TODA a melhorar e nunca mais precisar de medicação, que sempre traz efeitos colaterais. Dentre as pessoas com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), distúrbio que deixa o indivíduo muito dispersivo
e impulsivo e hiperativo, cerca de metade melhora. As demais são ajudadas com um tratamento neuroplástico chamado neurofeedback.

A terapia sonora funciona nos casos de TDA por vários motivos. Como assinala Paul, um bom “limiar de atenção” auditiva é em grande parte a capacidade de ouvir bem por um longo tempo, sem se deixar distrair por estímulos externos novos e irrelevantes; a concentração, diz ele, é “a capacidade de isolar informações parasitárias para ‘ouvir-se pensando’”. Cerca de 50% das crianças que tratou apresentam transtorno do déficit de atenção, embora muitas possam também ter dificuldades de processamento auditivo, problemas de distúrbios do aprendizado e hipersensibilidade ao som, condições que dificultam ainda mais prestar atenção. Em textos psiquiátricos, esses distúrbios sempre são apresentados separadamente, mas no mundo real muitas vezes se apresentam juntos.

“Gregory”, um menino com um caso clássico de TDAH que vinha de
condições de extrema privação, foi ajudado com o iLs. Seus pais biológicos eram um casal sem teto, viciado em hidrocloreto de metanfetamina, e a mãe bebia vodca durante a gravidez. Gregory foi entregue aos cuidados do Estado e depois adotado por uma mulher que chamarei de “Chloe” e seu marido.

Quando Gregory completou 3 anos, Chloe notou que ele era hiperativo. “Ele era impulsivo. Não reconhecia o espaço pessoal dos outros. Se se encontrasse com uma criança, ficava grudado no seu rosto, falando muito alto, e ia de encontro a portas, batia com a cabeça nas mesas, vivia com os olhos roxos, sofrendo acidente após acidente.” Também fazia coisas arriscadas, mostrava-se inquieto, não conseguia ficar sentado no assento da escola e perturbava os outros. Vomitava respostas às perguntas antes mesmo de serem concluídas, interrompia os outros e não sabia brincar tranquilamente. 

Quando ele fez 4 anos, seu professor queixava-se diariamente de que “Gregory está fora de controle”. Ele apresentava sintomas de dispersão, não ouvia os outros, não levava ao fim o que começava, pois algo mais atraía sua atenção, e estava sempre perdendo as coisas. Tinha todos os sintomas comportamentais da TDAH e foi diagnosticado por vários médicos, especialistas no transtorno. Receitavam-lhe o estimulante Adderall.

Mas Chloe estava relutante em dar medicação estimulante a uma criança que estava com o cérebro em desenvolvimento. Há indicações de que a administração de Ritalina a animais muito jovens leva a sintomas semelhantes à depressão a longo prazo. Como esses remédios não treinam o foco da criança, os problemas voltam quando são suspensos.


Chloe resolveu então buscar alternativas. Ficou sabendo do Kids Kount, um centro de tratamento para crianças com problemas de desenvolvimento de todos os tipos. Fundado pela patologista Andrea Pointer, especializada em questões de fala e linguagem, juntamente com a terapeuta ocupacional Shannon Morris, o Kids Kount tratou duzentas crianças com o iLs. Gregory foi submetido ao iLs duas vezes por semana durante três meses. Seu TDAH melhorou. O tratamento de escuta era adaptado aos seus problemas. Primeiro ele era exposto a frequências baixas e à condução óssea, para auxiliar o aparelho vestibular, acalmá-lo e “aterrá-lo”, ligando seu sistema nervoso 
parassimpático.

“O fato de serem adicionados movimento, equilíbrio e os componentes visuais do iLs enquanto ele escutava fazia uma enorme diferença em sua capacidade de prestar atenção”, diz Pointer. “O movimento gera dopamina, que é fundamental para a motivação e a atenção. Estávamos, portanto, proporcionando-lhe uma reação química natural em vez da provocada pela medicação.”

Conseguir que Gregory fizesse o iLs não foi a única mudança operada por Chloe. Ela notou que ele tinha uma extraordinária sensibilidade a alimentos com glúten e açúcar: “Dar açúcar ao meu filho é como lhe dar crack.” Ele ficava mais hiperativo. Um estudo realizado em Harvard em 2013 mostra que alimentos com teor muito alto de açúcar — em geral, alimentos processados — de fato acionam uma parte do cérebro que é afetada pelo crack e pela cocaína. Ele precisava abster-se de consumir açúcar, para melhorar a saúde celular geral do cérebro, mas também precisava do iLs para estimular e treinar os circuitos da atenção.

“A diferença no meu filho usando o iLs, e cuidando do que ele come, é da noite para o dia”, diz Chloe. Era fácil distinguir entre a ajuda que ele recebia do iLs e as mudanças na dieta. Quando a dieta era suspensa, o recuo era quase imediato. As melhoras proporcionadas pelo iLs eram lentas e seguras, e quanto mais Gregory o usava, mais tempo podia passar sem uso regular.


Hoje, se ele treina diariamente, e então deixa de usar o iLs, o efeito residual — a calma — permanecerá uns quatro dias antes que comecem a voltar os velhos comportamentos. Chloe comenta que “as anotações que chegam da escola dizem agora:
‘Gregory teve outro excelente dia!’”

Trecho retirado do livro “O cérebro que cura” Norman Doidge 


 



Topo