DISTÚRBIOS DE APRENDIZADO, VINCULAÇÃO SOCIAL E DEPRESSÃO

 

DISTÚRBIOS DE APRENDIZADO, VINCULAÇÃO SOCIAL E DEPRESSÃO

Um dos alunos de Tomatis era um médico cético a respeito da possibilidade de o som corrigir problemas de aprendizado. Essa atitude mudou quando a vida de sua própria filha estava em questão. Ron Minson era chefe do Departamento de Psiquiatria do Centro Médico Presbiteriano, em Denver, e do Centro de Ciências Comportamentais no Centro Médico de Mercy, onde ensinava antes de abrir uma clínica particular.


Depois de perderem um bebê para a síndrome da morte súbita infantil
(SMSI), ele e a mulher, Nancy, adotaram uma criança adorável, Erica. Menina feliz, na primeira série ela tinha dificuldade de pronunciar letras, invertendo-as, e não era capaz de soletrar nem de fazer cálculos matemáticos. Sua voz era monótona, ela lutava por compreender os outros e não entendia se estavam brincando, zangados ou sendo insistentes. Foi reprovada no primeiro ano e, com o passar de cada ano escolar, tinha a experiência constante do fracasso.


Um perspicaz colega de Ron achou que ela podia ter dislexia, e eles
experimentaram todas as abordagens convencionais — professores
particulares, patologistas da fala e da linguagem e educadores especializados —, mas sem resultado. Estimulantes da família da Ritalina, para melhorar sua atenção, serviam apenas para fazê-la sentir-se “agitada”. Erica tornou-se uma adolescente brigona, mal-humorada, deprimida e rebelde. 

Os testes psicológicos indicaram que “ela vivia a maior parte do tempo num mundo de fantasia, caracterizado por pensamento mágico”. Os antidepressivos geravam efeitos colaterais que a faziam sentir-se ainda pior que deprimida. No colegial, sua leitura ainda estava no nível da quinta série, e ela resistia a todas as tentativas dos pais de ajudá-la. A escola então desistiu dela, e ao chegar ao penúltimo ano do ensino médio ela estava tão desesperada que largou o colégio e começou a trabalhar como arrumadeira, num lava-carros e numa lanchonete, sendo no entanto constantemente demitida por mau comportamento ou por faltar várias vezes. 

Aos 18 anos, quando os colegas já estavam preocupados com as médias das notas e voltados para a faculdade, ela não via como encarar o futuro e levar adiante a vida. Como tantos jovens com distúrbios de aprendizado, desistiu de si mesma. Tornou-se suicida. Ron era um psiquiatra competente, mas aparentemente não conseguia nada com a pessoa que mais queria ajudar.

Certo dia, aos 19 anos, Erica entrou numa banheira de água quente com uma lâmina de barbear para cortar os pulsos. Foi quando seu gato entrou no banheiro, pulou na borda da banheira e começou a lamber seu ombro. Erica então mudou de ideia.


Mais ou menos nessa época, outro colega de Ron compareceu a uma conferência e ouviu Paul Madaule relatar como fora ajudado por Tomatis. 
Ron conta que “ignorou totalmente” porque parecia absurdo demais. Com a piora da depressão de Erica, contudo, ele fez uma pesquisa sobre Tomatis e descobriu o único estudo sobre o tema em inglês, “The Dyslexified World” [O mundo dislexificado], de Paul Madaule. “Ao lê-lo, comecei a chorar”, conta Ron. “Percebi que finalmente tinha uma ideia do que significava estar preso nesse mundo.”

“The Dyslexified World” (ou “L’univers dyslexié”, no título original de Paul) foi escrito quando ele tinha apenas 48 anos, mas é ainda hoje um dos mais notáveis estudos sobre um tema clínico que tive a oportunidade de ler. Uma obra-prima clínica, sem exageros. A psiquiatria não dá muita atenção aos distúrbios do aprendizado. The Diagnostic and Statistical Manual of Psychiatry [Manual Diagnóstico e Estatístico de Psiquiatria] (DSM-IV-TR) apresenta apenas categorias empobrecidas, com títulos como “distúrbio de leitura”. Para atender aos critérios, a pessoa deve ser incapaz de ler, na avaliação de testes padronizados, dando a entender que a dislexia é apenas um problema acadêmico.

O estudo de Paul acabava com essa concepção. Começa ele:

Aos olhos de muitos, pode parecer que a dislexia existe apenas nas salas de aula, já que é o rótulo aplicado à criança com problemas de leitura. [...] Meu objetivo aqui é focalizar o próprio jovem disléxico, a pessoa oculta por trás do fenômeno conhecido como “dislexia”, precisamente porque a criança disléxica vive com esse distúrbio o tempo todo: no recreio, em casa, com os amigos, sozinha, dormindo e em seus sonhos. O disléxico é disléxico cada segundo de sua vida. [...] A criança disléxica é difícil de apreender, pois não tem controle de si mesma. Desorienta os outros porque ela própria é desorientada. Na verdade, ela projeta nos outros o seu mundo interior, que descreveremos como “dislexificado”. como os próprios disléxicos pareciam estar “desempenhando um papel, sem ideia clara do que queriam”, e o fato de que “uma relação direta e aberta com eles muitas vezes era impossível”. Ali estava uma explicação de como um professor e um sistema escolar, tão úteis sob outros aspectos, podem ignorar as necessidades de um menino ou uma menina; como os parentes tantas vezes se mostram perdidos; e como um sistema de diagnóstico podia, pela vacuidade de sua descrição da dislexia, praticamente ignorar essa condição. A dislexia deixava desorientados todos os envolvidos.

Até os professores mais conscienciosos acabavam “dislexificados” por
esses jovens disléxicos, 
ficando “desorientados”, “desanimados” e atribuindo a eles todos os tipos de vícios, etiquetando-os como “preguiçosos, ociosos, burros, grosseiros, desatentos, ‘sem noção’ e má influência para os outros”. E “como esses alunos transmitem seu mal-estar aos que os cercam, muitas vezes servem de bodes expiatórios para os colegas”.

Paul comparava a condição do disléxico a alguém que visita um país
estrangeiro, no qual a linguagem é sempre estranha:


O estrangeiro sabe o que quer dizer, mas só é capaz de expressá-lo de maneira incompleta ou imperfeita. O vocabulário inadequado e as frases malconstruídas que utiliza para expressar seus pensamentos são apenas aproximações. A nuance é impossível. [...] [Ele] age com base em sua compreensão parcial, e não no significado verdadeiro das palavras da outra pessoa. [...] O esforço de busca das palavras adequadas e a tentativa de entender o que os outros estão dizendo requer tanta concentração que o estrangeiro logo perde o fio das ideias e rapidamente se sente cansado e desanimado.

Em 1989, Ron disse a Erica que tinha ouvido falar de um programa
envolvendo música que poderia ajudá-la, e acrescentou que participaria com ela ao longo de todo o tratamento. Levou-a ao Centro da Escuta e Aprendizado do Som em Phoenix, dirigido por Billie Thompson, instituição que Paul visitara com frequência, contribuindo com o seu desenvolvimento.


Embora Erica fosse gravemente suicida, um psiquiatra considerou que não precisava ser hospitalizada se o pai estivesse constantemente a seu lado. “Assim permanecemos juntos”, conta Ron, “no hotel, nas três semanas

seguintes, pela duração das quinze sessões de escuta. Minha esperança era que ela aprendesse a ler e superasse a dislexia, e que eventualmente sua depressão acabasse desaparecendo.”

Para sua surpresa, a terrível depressão desapareceu quase imediatamenteEla deixou de dormir o dia inteiro. Sua energia mental e física começou a florescer em quatro ou cinco dias, e ela ficou mais animada. A maior diferença era que imediatamente tornou-se capaz de expressar o que estava pensando e sentindo. (Nos meus termos, a neuroestimulação dos centros que energizam o cérebro, o sistema de ativação reticular, levou a uma neuromodulação do ciclo de sono e vigília e ao neurorrelaxamento, que resultou em sua reenergização.) Agora ela conseguia controlar o humor, aprender e diferenciar. A etapa de neurorrelaxamento também envolveu a ativação do seu sistema parassimpático, que acionou a vinculação social. Ela agora também era capaz de se relacionar com os outros. Ron observou como Erica estava articulada; nunca a ouvira falar de maneira tão direta.

Impressionado e feliz com a velocidade das mudanças e sua nova abertura, ele perguntou certa noite no hotel por que ela resistira às anteriores tentativas dos pais de ajudá-la. Ela respondeu: ‘Tudo que vocês faziam com as terapias me mostrava o que eu não era capaz de fazer. E então desisti. Eu sentia como se devesse estar em outro planeta, e que aqui não fosse o meu lugar. Só queria morrer.’

Ela se lembra daqueles dias decisivos em que usou os fones de ouvido pela primeira vez e ouviu a música estridente. “Depois de uns dois dias, eu já era capaz de sentar para conversar com papai no hotel e dizer o que estava sentindo.” Ela disse ao pai que pela primeira vez sentia que era ouvida, e que nunca antes se sentira tão ligada a um ser humano.

Erica disse-me que sempre se sentira “100% amada pelos
pais”, mesmo nos piores períodos. Em muitas ocasiões anteriores ela e o pai tinham tentado em vão estabelecer um vínculo: “Antes, eu sentia como se ele estivesse falando para mim, e não comigo, porque o meu cérebro não registrava os sons como os das outras pessoas. Eu simplesmente não entendia.
Depois de Tomatis, passei a entender o que ele dizia. Depois de três ou quatro dias em Phoenix, acordei me sentindo melhor, mais animada, com mais energia. Um belo dia, fui capaz de somar a conta do almoço vendo-a de cabeça para baixo. E a matemática sempre fora o mais difícil, junto com a soletração.”

Depois da fase ativa, sua confiança disparou. Ela conseguiu seu primeiro emprego fixo como recepcionista num salão de cabeleireiro e logo chegaria a gerente. Conquistou o diploma do ensino médio por correspondência.

Acabaria conseguindo emprego num banco, no qual permaneceu por quinze anos, administrando diariamente milhões de dólares. Há anos vem mantendo empregos estáveis. Atualmente, lê com voracidade, e o único aspecto remanescente da dislexia é que ela às vezes, quando se sente cansada, inverte as letras.

Totalmente inesperada para Ron foi uma mudança em seu próprio padrão de sono. Agora ele conseguia ficar bem desperto depois de apenas quatro ou cinco horas de sono, sentindo-se renovado. 

Percebeu que estava mais relaxado e mais em contato com as próprias emoções. E que adquiriu uma nova capacidade de liberar mágoas reprimidas. Um nódulo de tensão alojado no estômago há trinta anos desapareceu. Seria possível argumentar que essa onda de bem-estar resultava do alívio de um pai que via o sofrimento da filha chegar ao fim, mas era mais que alívio, pois as mudanças duraram décadas.


Tudo a que ele assistiu com Erica, escreveria mais tarde, “ia de encontro a toda a minha experiência clínica de psiquiatra. E, ainda por cima, sem nenhuma medicação”.
Ron Minson começou a aprender francês e foi para a Europa estudar com Tomatis.

Trecho retirado do livro “O cérebro que cura” Norman Doidge 




Topo