AUTISMO - UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

 

AUTISMO - UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

Um menino que chamarei aqui de “Timothy” representa um caso mais
característico. Fez enormes progressos, mas ainda tem alguns vestígios de autismo. Como Jordan, ele inicialmente era saudável de maneira geral, mas aos 8 meses teve uma involução autista. 

Seu desenvolvimento inicial mental, emocional e de linguagem era normal, e regrediu. Ele parecia desinteressar-se pelas relações com outras pessoas: parou de falar e de atender pelo nome, de fazer contato visual, de brincar normalmente e começou a ter acessos de fúria. Ao se aproximar dos 3 anos, estava preso no seu mundo, e sua mãe, “Sandra”, junto com seu marido, sentiam horrivelmente a perda do filho: “Queremos apenas nos relacionar com ele.” Timothy apresentava todos os sintomas básicos do autismo e recebeu de vários médicos especializados o diagnóstico de autismo severo. 

Sandra contou-me que ela e o marido foram informados de que “ele não teria uma vida normal, nunca frequentaria uma escola normal, nem poderia preparar-se para um emprego”. 

No Centro da Escuta, Timothy imediatamente se estabilizou. No primeiro dia do programa, cessou o movimento constante; no segundo, dormiu por dez horas, o mais longo período desde a regressão autista. 

No terceiro dia, sua mãe contou-me: “Ele parecia uma outra pessoa. Meu marido chega em casa e Timothy foi abraçá-lo pela primeira vez desde que o perdemos para o autismo.” 

O progresso do menino foi lento e constante, estendendo-se por alguns anos. Ele se consultava uma vez por ano com Paul, por dez horas de escuta e trabalho com a expressividade da fala, e também para ajudá-lo a lidar com as novas questões que surgiam a cada etapa do crescimento, especialmente na puberdade. A terapia da escuta não consiste apenas em prender uma pessoa a uma máquina, mas exige um terapeuta como Paul, que entende como fazer contato com a mente e o coração de alguém com problemas de autismo ou outras dificuldades de aprendizado.

Timothy evoluiu da necessidade de assistentes educacionais na turma para a possibilidade de cuidar de si mesmo. Aos 17 anos, tirava as notas máximas, inclusive em inglês — um feito incrível para um menino que perdera a fala. Tem um amigo fixo e já começa a se tornar mais independente da família.

Passou de um grau severo para um grau moderado de autismo, e está a ponto de se formar num colégio normal com os colegas e de conseguir um emprego.


Os pais, que queriam apenas “ter uma relação com ele”, chegaram lá.
Embora se considere que o autismo é incurável, a médica Martha Herbert, Ph.D., neurologista pediátrica, pesquisadora na Faculdade de Medicina de Harvard e autora de
The Autism Revolution [A revolução do autismo], também documenta casos de crianças com o transtorno que mudaram completamente suas vidas com os avanços conquistados. “Durante décadas, a maioria dos médicos dizia aos pais que o autismo era um problema genético no cérebro dos filhos”, escreve ela, “e que [...] deviam se acostumar com a ideia de que os problemas dos seus bebês estariam presentes pelo resto da vida.”  

Mas a pesquisadora demonstra que o autismo muitas vezes é um processo dinâmico. Não é apenas genético, não é apenas um problema cerebral, não é causado por um único motivo nem sempre está fora do alcance de qualquer tentativa de ajuda, especialmente se a terapia é iniciada quando a criança é muito pequena.

Em certos casos, o autismo está presente já no nascimento ou logo depois; mas no “autismo regressivo”, o desenvolvimento mental da criança parece perfeitamente normal no início, até que, geralmente entre o segundo e o terceiro ano de vida, os sintomas apareçam.

Os índices de incidência do autismo estão disparando. Cinquenta anos
atrás, uma em cada 5 mil pessoas tinha autismo. Em 2008, o Centro de
Controle de Doenças registrava um índice de um para 88. Em 2010,
aumentou para um para 68 (e um para 42 no caso dos meninos).

Embora esse aumento possa ser causado em parte pela maior consciência atual entre os médicos, que passaram a diagnosticá-lo com mais frequência, muitos clínicos que o tratam acreditam que há um crescimento no número de crianças que desenvolvem o distúrbio. 

O que certamente vem acontecendo com excessiva rapidez para ser explicado por fatores genéticos, que levam gerações para se manifestar. Conforme observa Herbert: “Centenas de genes atualmente são associados ao autismo. Em sua maioria, não têm grande efeito. Na maior parte dos casos, provavelmente geram uma leve vulnerabilidade. [...] Até os genes que provocam autismo de maneira muito acentuada [...] afetam apenas uma parte de um percentual do número total de pessoas com autismo [...] e algumas pessoas com esse gene não apresentam o transtorno.”

Os genes podem representar um risco de autismo para uma criança, mas fatores ambientais são necessários geralmente para transformar esse risco numa doença. Muitos desses fatores estão relacionados ao sistema imunológico na infância, fazendo-o liberar anticorpos e produzir uma inflamação crônica que afeta o cérebro. Muitas crianças autistas têm anormalidades no sistema imunológico e sistemas imunológicos hiperativos.38 Apresentam altos índices de infecções gastrointestinais e inflamação, sensibilidade a alimentos (frequentemente grãos, glúten, laticínios e açúcar), asma (que envolve inflamação) e inflamação da pele.

Sabe-se que as drogas anti-inflamatórias diminuem os sintomas do autismo. É verdade que existem também fatores não inflamatórios, como deficiências químicas, mas o fato é que a inflamação vem surgindo como um elemento decisivo. Herbert dá muitos exemplos de crianças que tiveram melhoras radicais quando a inflamação foi tratada. Caleb, um menino que apresentava muitos sinais de inflamação e muitas infecções, desenvolveu autismo regressivo, mas seu transtorno desapareceu aos 3 anos, quando a mãe eliminou o glúten da sua dieta. Outro fator de estresse são as toxinas, que também podem irritar o cérebro e causar inflamação. Hoje em dia, os bebês estão expostos a toxinas no próprio útero e nascem pré-poluídos. Após o parto, as crianças têm em média duzentos grandes elementos químicos tóxicos no sangue do cordão umbilical, inclusive alguns que foram banidos há trinta anos. Muitos são neurotoxinas diretas. Por serem estranhos ao corpo, os elementos químicos tóxicos provocam reações imunes.

NO CÉREBRO INFLAMADO, OS NEURÔNIOS NÃO SE CONECTAM

(...)

A inflamação crônica perturba os circuitos neurais em desenvolvimento. Exames de escaneamento cerebral mostram que muitas redes neurais de crianças autistas são “insuficientemente conectadas”, e que os neurônios na parte frontal do cérebro (que têm a ver com metas e intenções) são insuficientemente conectados aos neurônios da parte posterior (que processam as sensações). 

Outras áreas cerebrais evidenciam “excesso de conectividade”, problema que pode levar a convulsões, também comuns em crianças autistas. Conectividade insuficiente e excessiva combinadas podem tornar difícil para o cérebro sincronizar suas atividades entre as áreas. Em suma, o autismo é produto de fatores genéticos de risco e de muitos gatilhos ambientais, que às vezes podem afetar a criança antes do nascimento, às vezes depois, destacando-se reações imunológicas e inflamatórias. Juntos, esses fatores sobrecarregam o cérebro em desenvolvimento, de tal maneira que os neurônios não se conectam adequadamente e não são capazes de se comunicar bem uns com os outros.

Os neurocientistas têm feito recentemente novas descobertas sobre
“questões de conexão” no autismo, o que ajuda a entender de que maneira a escuta é afetada nessa condição. Em julho de 2013, cientistas da Universidade de Stanford liderados por Daniel A. Abrams e Vinod Menon mostraram que, em crianças autistas, a área do córtex auditivo que processa a voz humana está insuficientemente conectada ao centro subcortical de recompensa no cérebro.
Quando alguém desempenha uma tarefa, o centro de recompensa dispara e libera dopamina, provocando uma sensação de bem-estar e reforçando a motivação para repetir a tarefa. 

O estudo, que usa uma tomografia especial por ressonância magnética para mostrar conexões entre áreas do cérebro, constatou que as áreas da fala no hemisfério esquerdo (responsável por processar as partes mais simbólicas da fala) e as áreas da fala no hemisfério direito (que processa os componentes musicais e emocionais da fala chamados prosódia) estavam insuficientemente conectados com o centro de recompensa. Resultado? Uma criança incapaz de conectar as áreas cerebrais que processam a voz ao centro de recompensa é incapaz de vivenciar a fala como algo prazeroso.

Trecho retirado do livro “O cérebro que cura” Norman Doidge 




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