TREINANDO O CÉREBRO PELO ESTÍMULO DO OUVIDO

 

TREINANDO O CÉREBRO PELO ESTÍMULO DO OUVIDO

Tomatis dividiu seu programa de escuta em duas fases. A primeira, a fase passiva, geralmente dura quinze dias. É chamada passiva porque o cliente precisa apenas ouvir a música alterada, sem se concentrar nela. (Na verdade, é até melhor que não preste muita atenção à música, pois essa atividade pode desencadear os velhos hábitos de escuta que o terapeuta está tentando superar.)

O Ouvido Eletrônico, definido por Tomatis como um “estimulador da escuta adequada”, compõe-se de dois canais de áudio. Um dos canais fornece ao cliente música filtrada para enfatizar frequências agudas mais altas e tirar a ênfase das frequências mais baixas. (As frequências mais altas são as frequências da fala humana.)

O canal das frequências baixas reproduz a audição de um ouvido de escuta ruim, com baixa tonicidade muscular.
Quando esse canal é tocado para pessoas com problemas auditivos, seus músculos do ouvido “relaxam”, e elas replicam seus hábitos de escuta mais frequentes. O filtro está sempre oscilando entre o canal de alta frequência e o de baixa frequência, servindo o volume da música para desencadear essa alternância entre os canais. Quando o volume está baixo, o canal de baixa frequência é ouvido; quando ele chega a tantos decibéis, o canal de alta frequência entra em ação. Toda vez que ele passa para o canal de alta frequência, os músculos auditivos e a escuta de alta frequência são exercitados; quando ele retorna à frequência mais baixa, os músculos e os neurônios relacionados a essas frequências podem repousar. Tais ciclos de exercícios constituem a fase passiva do treinamento da escuta.

Essa alternância entre um canal e outro, desencadeada pela mudança de volume da música (chamado de comutação pelos engenheiros eletrônicos) confere um senso de novidade à escuta, e a novidade é uma forma poderosa de mobilizar a plasticidade do cérebro. Uma nova experiência sensorial desperta os processadores de atenção do cérebro, sendo mais fácil o estabelecimento de novas conexões entre os neurônios. Ela secreta dopamina (e outros elementos químicos cerebrais) para consolidar as conexões entre os neurônios que registraram o acontecimento. Essa transação é a maneira que o cérebro tem de dizer: “Guarde esta!” Com o passar dos anos, Tomatis tratou de se certificar de que a comutação, ou alternância, não fosse previsível, pois a surpresa é fundamental para a mudança cerebral. Constatou que fitas pré- gravadas sem alterações aleatórias não eram igualmente eficazes.


A fase passiva termina quando a filtragem, que vai diminuindo com o passar do tempo, é completamente eliminada da música de Mozart e da voz da mãe.

Em geral, um período de descanso de quatro a seis semanas é observado entre o a fim da fase passiva e o início da fase ativa, para que o paciente possa consolidar, integrar e praticar seus ganhos de escuta. Nessa fase do treinamento de Paul, ele ouvia melhor e com menos esforço. Todos os professores e tutores anteriores lhe haviam dito que ele precisava se esforçar mais. Agora que seu cérebro recebia a informação adequada, ele descobriu que não precisava se esforçar mais para se sair melhor, pois havia “fluxo” na sua escuta.

Ao terminar a fase passiva, Tomatis surpreendeu Paul com a sugestão de que fosse à Inglaterra, em vez de voltar para casa. Disse-lhe que era para poder aprender inglês — missão realmente desafiadora para uma pessoa com problemas auditivos. Tomatis orquestrou muito bem a aventura de Paul, para que pudesse testar suas novas habilidades longe de Castres, o ambiente que lhe fora tão prejudicial. Paul ficou exultante, mas também intrigado. Duas vezes ele já tentara aprender inglês na Inglaterra, fracassando e desistindo.


Mas agora, ao viajar, ele conseguiu se fazer entender, relacionar-se com as pessoas e desfrutar da Londres da década de 1960. “Tudo parecia surpreendentemente fácil, até a língua inglesa”, escreveu.

Quando Paul voltou, a surpresa seguinte de Tomatis, com o objetivo de reforçar a ideia de um novo começo, foi sugerir que ele se matriculasse num internato perto de Paris, embora Paul nem tivesse conseguido chegar ao fim do primeiro ano do segundo ciclo. Ele ficou intimidado, mas Tomatis insistiu em que adotasse como meta obter o diploma do segundo ciclo — necessário para admissão na universidade — dentro de dois anos, garantindo-lhe mais uma vez que teria êxito caso se esforçasse tanto no colégio quanto se esforçara no treinamento da escuta e no período em que se divertiu na Inglaterra. Frequentando um colégio perto de Paris, ele poderia dar continuidade à fase seguinte do tratamento, voltada para suas dificuldades de se expressar.

Veio então a fase ativa. Para aprender a se expressar melhor na fala, Paul, usando fones de ouvido, falava no microfone e ouvia a própria voz através do Ouvido Eletrônico. Como seu processamento auditivo tinha melhorado muito, ele agora era capaz pela primeira vez de realmente escutar a própria voz, usando-a para melhorar seu processamento auditivo — e para se energizar. Começou a pronunciar as palavras com toda atenção, movimentando os lábios e outros músculos e ao mesmo tempo sentindo as vibrações que ocorriam a partir dos lábios, da garganta, dos ossos faciais e outros enquanto falava. Ao pronunciar diferentes palavras, desenvolveu uma consciência proprioceptiva mais plenamente diferenciada — a consciência da posição exata dos lábios, da língua e de outras partes do corpo. Como numa aula de Feldenkrais, ele estava usando a consciência para diferenciar os mapas cerebrais.

Tomatis passou então a estimular Paul, que murmurava e falava em tom monótono, a cantarolar, pronunciar vogais e repetir frases para melhorar seu fluxo da fala. Embora um fonoaudiólogo pudesse ter feito esse trabalho, Paul o fazia utilizando o Ouvido Eletrônico, com feedback filtrado pelos fones de ouvido. Isto enriqueceu as frequências médias e altas da sua voz, tornando-a mais vibrante, mais forte, mais expressiva e rica em timbres. Influenciado por sua prática de ioga, Tomatis treinou Paul a se sentar de forma ereta e respirar adequadamente. E um belo dia, para sua surpresa, seu pupilo entrou numa livraria e se deu conta, enquanto folheava um livro para ver as imagens, que na verdade o estava lendo e entendendo.

Para melhorar a leitura, a escrita e a soletração de Paul, Tomatis pediu-lhe que lesse em voz alta, ao mesmo tempo que seguia as palavras com o olhar e ouvia pelo Ouvido Eletrônico. Para reforçar os caminhos neuronais recém criados, Paul também lia em voz alta sem o Ouvido Eletrônico durante meia hora por dia, fechando o punho da mão direita para fingir que era um microfone. Esta técnica simples fazia o som projetar-se de volta do punho de Paul para seu ouvido direito, reforçando a escuta do lado direito e a dominância das frequências mais altas.

Os primeiros quinze dias do tratamento de Will foram dedicados à fase passiva. Durante uma hora e meia, ele ouvia Mozart pelos fones de ouvido, assim como a voz da mãe lendo versinhos infantis, em ambos os casos com filtragem. Em seguida, Paul tocava para ele cantos gregorianos sem filtragem, entoados por um coro de vozes masculinas. Essas frequências gregorianas destinavam-se a deixá-lo relaxado, após intensa estimulação sonora. O ritmo do canto combinava com a respiração e os batimentos cardíacos de um ouvinte calmo e relaxado. Para Liz, era como se Will quase imediatamente soubesse que esse processo o estava ajudando. A cada manhã ele parecia mais ansioso que na véspera para sair do seu carrinho, subir os degraus, abrir a porta e começar.
Paul disse a Liz que Will podia dormir muito enquanto ouvia música, e foi o que aconteceu. Previu também que, pelo fim da primeira semana, ele provavelmente começaria a dormir melhor. Na sexta noite, Will dormiu a noite inteira pela primeira vez na vida.

“Foi absolutamente inacreditável”, conta Liz, chorando. “Quando alguém diz que uma coisa assim vai acontecer — e que vai mudar a vida do seu filho —, a gente fica esperando mesmo.”


Na primeira vez em que Will ouviu a voz altamente filtrada da mãe
— tão filtrada que Liz não foi capaz de reconhecê-la —, começou a olhar mais para ela e a se conectar mais profundamente com ela. Queria mais interação, sentando perto dela e tentando participar de suas atividades, ou então puxando-a para si. Cedeu um pouco a sua frustração e a sua raiva em relação a ela. “Era como se ele soubesse que era eu”, conta Liz. Mas isto não deixava de ser intrigante, pois afinal de contas ele ouvira sua voz sem filtragem a vida inteira. Embora as crianças não identifiquem conscientemente a voz da mãe com um som de assobio, Paul e sua equipe constantemente veem crianças que não demonstravam capacidade de conexão, ou apenas de maneira limitada e ambivalente, abraçarem espontaneamente a mãe pela primeira vez, estabelecendo contato visual e evidenciando sinais de ternura. Crianças imperativas tornam-se mais calmas; crianças muito comportadinhas começam a extravasar de uma maneira animada e saudável; e, na maioria dos casos, tornam-se melhores ouvintes e falantes. Paul escreveu: “É como se o som filtrado da voz da mãe aumentasse o desejo da criança de nascer para um mundo no qual o som e a linguagem são um meio de comunicação.”  Certas crianças autistas começam balbuciando. Em seguida, por alguns dias, gritam sons agudos, e então começam a falar e a fazer contato visual. Adultos que fazem o treinamento com a voz da mãe podem sentir-se menos tensos, dormir melhor, expressar mais emoções (tanto agradáveis quanto desagradáveis) e tornar-se mais energizados.

Paul também fez uma previsão sobre a linguagem de Will.  Segundo Liz, “ele foi muito específico e disse: ‘Vão ocorrer mudanças de linguagem no quarto dia.’” E no quarto dia Will disse sua primeira palavra. Ele estava no chão, ouvindo música filtrada, e falou “lion” enquanto colocava a imagem de um leão num quebra-cabeça. Era a primeira palavra que ele usava em contexto. No dia seguinte, colocando o número 8 num quebra-cabeça, ele disse “eight”. Pronunciava uma nova palavra a cada dia, sempre enquanto ouvia música filtrada. No último dia em Toronto, Darlah Dunford, uma das terapeutas de Will, colocou-o num balanço e disse: “Um, dois e três!”, empurrando-o várias vezes. Ficou repetindo “Um, dois...” mas sem soltar o balanço até que ele dissesse a última palavra. Ele completou a frase, dizendo “Três!”, e ela o empurrou. 

Passados quinze dias, Will já sabia dez palavras, usava-as em contexto, dormia a noite inteira e pela primeira vez brincava de maneira adequada com os brinquedos. Não se movimentava mais o tempo todo. E parou de morder a própria barriga até sangrar.

Trecho retirado do livro “O cérebro que cura” Norman Doidge



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