A conexão especial entre a música e o cérebro

 

A conexão especial entre a música e o cérebro

UM MENINO DISLÉXICO REVERTE SEU QUADRO


Um belo dia, na primavera de 2008, recebi um telefonema de uma
desconhecida, falando a respeito de Paul Madaule, o homem que salvara seu
filho. Aos 3 anos, o menino, aqui chamado de “Simon”, evidenciava sinais perturbadores. Não atendia pelo nome nem respondia; se alguém lhe jogasse uma bola, ele não jogava de volta. Demorou para engatinhar e andar, era desajeitado e apresentava um desenvolvimento atrasado. A mãe, aqui chamada de “Natalie”, disse-me que o psicólogo ao qual o havia levado considerou que ele poderia apresentar o espectro autista. Outro clínico disse que ele evidenciava “sintomas de natureza autista”, mas Natalie duvidava do diagnóstico. O terapeuta ocupacional sugeriu que a mãe o levasse a Paul Madaule.

Madaule disse que Simon apresentava os sintomas “periféricos” do
autismo; concordou que o menino tinha sérios problemas de
desenvolvimento, mas Simon não apresentava aquele que alguns consideram o sintoma principal do autismo: a incapacidade de imaginar o que acontece na mente de outras pessoas. 

Natalie contou-me que o trabalho com Madaule mudou completamente o seu filho. Até então reservado, ele passou a iniciar interações com outras pessoas, seus movimentos e sua fala tornaram-se fluidos e ele “teve sua primeira conversa de verdade comigo desde que nasceu”.


Mas as técnicas de Madaule eram tão inusitadas, confessou ela, que quando se referia a ele em conversa com outros médicos e pais de crianças com problemas semelhantes, ninguém aparentemente acreditava em sua história: mostravam-se céticos ou não apresentavam qualquer interesse pela maneira como um menino com sintomas semelhantes aos do autismo os havia superado.

Quando lhe perguntei o que exatamente Madaule fazia, percebi que ela se preparava para me relatar algo que sabia parecer absolutamente absurdo.


Contou-me que Madaule usava música — em geral Mozart, mas modificado de uma maneira estranha, juntamente com gravações alteradas da própria voz
dela — para reprogramar o cérebro do seu filho. O método melhorara radicalmente sua capacidade não só de ouvir e se relacionar, como também de efetuar pela primeira vez muitas atividades mentais que nada tinham a ver com o som. Era a medicina musical: o uso da energia sonora para lançar uma ponte até o cérebro, para falar sua língua.

Hoje, cinco anos depois, conta Natalie, seu filho é “o primeiro da turma em termos acadêmicos, tem mais amigos do que consigo programar em seu calendário, evidenciando bom gênio, afabilidade e uma enorme consciência das relações sociais”. Seus problemas motores se foram, ele participa de competições de natação, joga futebol e críquete e ganhou medalha de ouro no caratê. “O trabalho de Paul e sua equipe mudou nossas vidas de muitas maneiras, profundamente. Não sei o que eu teria feito se não o tivesse encontrado.” Ela hesitou um pouco e acabou dizendo: “Nem gosto de pensar nisso.” 

Francês bem-apessoado de cabelos negros, Madaule tem enormes olhos castanhos cheios de empatia, traços simétricos gauleses e ossos faciais que sugerem a aparência de um artista mediterrâneo. É um clínico sensível, humilde e discreto (características essenciais para quem ajuda crianças hipersensíveis com distúrbios do desenvolvimento). Sua maneira suave, comedida e não mecânica de se movimentar surte um efeito calmante em qualquer ambiente. Apesar da presença marcante, ele não domina nem chama a atenção para si mesmo. Depois de passar algum tempo na sua presença, sentimos a qualidade e o alcance da sua atenção, que de fato pode ser considerada o foco de um artista. Ainda quando está nos observando, não nos sentimos perturbados nem assoberbados, e sim impregnados por sua humanidade. Mas o mais impressionante nele é o efeito calmante de sua voz bela, firme e sonora. Só que nem sempre foi assim.

Paul nasceu com um devastador distúrbio de aprendizado em 1949, em Castres, pequena cidade isolada do sul da França, época e lugar que não evidenciavam grande compreensão dos problemas cerebrais das crianças.


Seus pais levaram-no a todos os tipos de especialistas existentes no país na década de 1960: psicólogos, psiquiatras e ortofonistas — fonoaudiólogos —, pois ele só era capaz de murmurar numa tonalidade monótona. Precisava sempre pedir que as pessoas repetissem o que haviam dito (muito embora os testes convencionais de audição indicassem que seus ouvidos funcionavam bem). Repetiu quatro anos na escola (e, acrescenta, passou em alguns apesar de não merecer). O diagnóstico era “dislexia”, palavra que ele não era capaz de pronunciar nem de entender, usada para se referir ao distúrbio de aprendizado mais comum, envolvendo dificuldades no aprendizado da leitura. Como muitos outros disléxicos, Paul trocava as letras b e d, p e q, assim como os algarismos 6 e 9 ao escrevê-los.

UM ENCONTRO FORTUITO NA ABADIA D’EN CALCAT


De repente, aos 18 anos, ele estava isolado, sem escola nem emprego. Com muito tempo livre, costumava visitar um mosteiro beneditino, a cerca de 16 quilômetros de bicicleta de sua casa. Sentia-se atraído pela presença de artistas no local, na esperança de que talvez pudesse tornar-se um deles, sendo a arte a única atividade que ele podia imaginar praticar. Na abadia, a Abbaye d’En Calcat, encontrava paz. Um belo dia, o padre Marie, um monge que se interessara por Paul, disse-lhe que um médico estava visitando o mosteiro e por acaso fizera uma palestra sobre dislexia. Segundo o padre, os sintomas descritos pelo médico eram muito parecidos com os de Paul.

Esse médico, o dr. Alfred Tomatis, fora chamado ao mosteiro para
consultar em circunstâncias peculiares. A maioria dos monges tinha adoecido, com exaustão e sintomas que ninguém conseguia explicar. Setenta dos noventa monges, até então homens robustos, acostumados a quatro horas de sono, mostravam-se agora apáticos o dia inteiro, largados em seus quartos.
Médicos sucessivos haviam sido chamados ao local, cada um com suas recomendações. Alguns aconselhavam mais sono, mas quanto mais os
monges dormiam, mais cansados ficavam. Especialistas em digestão recomendaram que eles — vegetarianos desde o século XII — passassem a comer carne. Pioraram ainda mais.

(...)O último médico a visitá-los foi Tomatis, o que parecia absurdo, pois ele era otorrinolaringologista, especialista em ouvidos, nariz e garganta. Mas era conhecido como um gênio do diagnóstico e se interessava pela medicina mente-corpo. Tomatis montou seus equipamentos numa sala do mosteiro e treinou um dos monges a aplicar testes nos colegas doentes. Também concordou em examinar Paul, que, no entanto, teria de ser avaliado primeiro.


Quando Paul chegou à sala do monge, ela estava cheia de máquinas eletrônicas, parecendo próprias para testes de audição. Recebendo seus fones de ouvido, ele foi instruído a erguer a mão direita com a máxima rapidez possível ao ouvir um bipe no ouvido direito, e a levantar a esquerda se o bipe fosse no ouvido esquerdo. Em seguida, ouvia pares de bipes, sendo instruído a dizer ao monge qual dos sons era mais alto e qual era mais baixo. Para Paul, parecia tudo muito semelhante aos testes de audição que já havia feito. 
Mas Tomatis não estava fazendo testes de audição. Eram testes de escuta.

Ele encarava a audição como uma experiência passiva envolvendo o ouvido; a “escuta” era ativa, envolvendo o que o cérebro era capaz de extrair e decodificar do que passava pelos ouvidos. No fim do teste, o monge entregou alguns gráficos a Paul e disse-lhe que fosse ao encontro do médico no parque do mosteiro.


Tomatis levou Paul para uma caminhada pelo parque, fazendo-lhe muitas perguntas sobre arte, a vida em casa, sua sexualidade, sua religião, seus sonhos e esperanças. Tratou de todos os temas, exceto as grandes dificuldades de Paul no colégio. Discordava livremente dele, mas sempre fazendo-o sentir que suas opiniões importavam.


Finalmente, Tomatis explicou a Paul o significado dos sintomas que vinha enfrentando a vida inteira — suas “petites misères”, seus probleminhas incômodos, de uma maneira que lhe permitiu entender pela primeira vez suas dificuldades de ler e se expressar, sua extrema timidez, os acessos de raiva, a ansiedade, a falta de jeito, a insônia e o medo do futuro. Explicou também de que maneira esses problemas todos encaixavam, o que parecia incrível, considerando-se que havia testado apenas sua escuta. 

Paul pensou: “É a primeira pessoa que realmente falou comigo; os outros falavam com alguém que estavam vendo.” Tomatis convidou Paul a se tratar em sua clínica em Paris, e então pediu, inexplicavelmente, que levasse uma gravação da voz de sua mãe.

Em Paris, no consultório de Tomatis, Paul foi mais uma vez convidado a usar fones de ouvido e informado de que o tratamento começaria com escuta diária durante várias semanas. Inicialmente, ele ouvia apenas ruídos estridentes e indecifráveis de estática, com fragmentos de um Mozart infinitesimal, eletronicamente manipulado. Tomatis disse-lhe que podia fazer o que quisesse enquanto ouvia, e ele optou por desenhar e pintar. Toda semana, aproximadamente, ele recebia outro teste de escuta e em seguida se encontrava com Tomatis.

Os dias se passaram, e aos poucos ele foi identificando palavras isoladas por trás dos sons estridentes. As palavras pareciam distantes, de um outro mundo. E então podia aparecer uma frase ou até mesmo uma sentença. Semanas depois de iniciada a experiência, ele notou que sua escuta estava melhorando — já conseguia entender melhor os sons — e os sintomas começavam a recuar. Certo dia, ele se deu conta de repente de que todo aquele tempo, em algumas das gravações estridentes, estava ouvindo a voz de sua mãe.

Passadas quatro semanas, ele era outra pessoa. Seriam necessários anos de estudo para entender como essa transformação ocorrera: de que maneira a “mera” energia — a energia e a informação das ondas sonoras — o tinha ajudado a reprogramar o cérebro.

 Trecho retirado do livro “O cérebro que cura” Norman Doidge

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